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Mulheres que mudaram a história de Pernambuco


Fátima Morais

Mulheres que mudaram a história de PE

Fátima, nascida no Recife, é filha do economista Abdoral Morais, que foi inspetor do Bandepe, e de Juvina Veloso de Morais, já falecidos. Tem dois irmãos, uma filha e três netos. O pai vislumbrava uma carreira na área de Direito, mas ela não cedeu ao desejo de tornar-se educadora, pois considerava essa profissão a base para a construção de pessoas competentes para o mundo do trabalho e capazes de ensinar a pensar, para conhecer a realidade e poder transformá-la. Iniciou seus estudos na década de 60, na Faculdade de Filosofia do Recife (Fafire)/(UFPE). Recém-formada, em 1969, decidiu com duas colegas fundar uma escola que contestasse o ensino tradicional, surgindo a Escola Recanto Infantil, no Espinheiro/Recife, com proposta inovadora e revolucionária. Na Recanto, as crianças realizavam com o apoio do professor a auto-gestão, decidindo pelo voto (palavra proibida na época) deveres, direitos, conteúdos "de vida" que desejavam estudar enriquecendo a visão de mundo dos alunos.

Com amigos exilados na França, descobriu a Pedagogia Freinet, assumida pela Recanto que, até então, buscava inspiração na Educação pela Arte ,do educador e artista pernambucano Augusto Rodrigues, fundador das Escolinhas de Arte do Rio de Janeiro e de Recife, de quem se tornou amiga e discípula, na Pedagogia de Paulo Freire.

No início dos anos 70, a Recanto já era escola de referência, pela defesa do meio ambiente, por considerar o aluno agente e centro do processo educativo e por valorizar O DESEJO, FUNDAMENTAL PARA O ATO DE APRENDER, teses que só vieram a ser defendidas em meados dos anos 80.

Filiou-se à Federação Internacional do Movimento de Escola Moderna (FIMEM), que reúne educadores Freinet de todos os continentes Fez estágios e cursos em Portugal, França, Bélgica e Alemanha, visando descobrir a escola dos seus sonhos, analisando diferenças, similitudes para aplicar a pedagogia Freinet de acordo com a realidade brasileira.

Inovou, quando foi a primeira escola Freinet no mundo a implantar, na época, o ensino fundamental de 5ª a 8ª séries, objeto do livro do professor francês André Lefeuvre:"Une école Freinet au Brésil:de la maternel au vestibular”, documentando a experiência da Recanto, lançado em Rennes, na França, durante o Congresso do Instituto Cooperativo da Escola Moderna Francesa,que vem inspirando professores europeus.

Fato marcante na vida dessa professora foi a sua escolha para representar o Brasil no Conselho Administrativo da FIMEM, a primeira pessoa não européia a participar desse conselho, onde realizou trabalho voltado para a formação de professores de escolas comunitárias, a exemplo do projeto de capacitação, no Sítio dos Macacos, em Dois Irmãos/Recife, com intercâmbio entre os alunos comprovando o poder da solidariedade e do trabalho coletivo.

A frente, durante dez anos, do Movimento de Escola Moderna do Norte e Nordeste, do qual foi fundadora, Fátima trabalhou com favelas de Novos Alagados e Calabar, em Salvador/Bahia, na capacitação de professoras e intercâmbio entre alunos das favelas e da Recanto, acreditando que educar é um ato político, conforme o seu mestre e amigo Paulo Freire. Conseguiu realizar um seminário de capacitação para 200 professoras comunitárias, em Itaparica, na Bahia e, no Recife, Seminário Nacional de Educadores Freinet, além de seminários Regionais em Pernambuco e no Nordeste sempre como militante da Pedagogia Freinet.

A Recanto tornou-se referência da Pedagogia Freinet, nacional e internacionalmente, e desde 1969, já levantava a bandeira da inclusão, sendo hoje também considerada escola de referência em educação Especial.

Na Recanto, a palavra "Cidadania" foi incluída desde sua criação, daí ter sido discriminada como "escola subversiva", porém nada diminuía a capacidade de luta da diretora e de sua equipe, comprometida com a integridade do homem, pelo respeito aos seus direitos e consciência dos seus deveres.

Na visão de formação do cidadão, a Recanto introduziu o debate político, com candidatos transformando as eleições para os cargos majoritários em conteúdo de discussão na escola, fato iniciado em 1982, na primeira eleição direta, prática que a escola realiza até os dias atuais. A Escola Recanto, pela persistência de Fátima, não se rendeu aos modismos da educação. Cada aluno tem a sua identidade e cada professor é um aprendiz. Todos atuando como agentes de propagação dos ideais de Freinet, Paulo Freire e Hélder Câmara.

A Recanto também inovou quando instituiu a investigação científica curricular, a partir da 5ª até a 8ª série possibilitando aos alunos escolherem tema e orientador, produzindo monografia, para apresentação à comissão julgadora e ao público na Mostra de Conhecimentos. Com as pesquisas "Caatingas de PE: conhecer para preservar" e "Manguezais, a importância de sua preservação", foram conquistados em São Paulo, dois prêmios da Ciranda da Ciência/Fundação Roberto Marinho, publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e Governo do Estado de PE, que também editou "Capibaribe, o passado, o presente e o teu futuro?". A Recanto representou o Brasil na EXPOSCIENCE, na França, obtendo dois prêmios, com "Irrigação, uma alternativa para a agricultura de PE.", que teve como campo de pesquisa o Vale do São Francisco. A profª. Fátima junto com a profª. Iradalva Rios e dezessete alunos representaram o Brasil, na França, nas homenagens da UNESCO, em 1996, ao Centenário de Celestin Freinet.

Assim, a Recanto ultrapassou fronteira, mostrando um jeito novo de descobrir o mundo e o conhecimento.